A primeira tela ainda não existia
Projetos institucionais costumam ser apresentados como uma demanda objetiva: criar uma página, organizar um material, dar visibilidade a uma iniciativa. Mas a interface quase nunca é o começo da história. Antes dela, existe uma pergunta mais difícil: como reunir o que uma organização precisa dizer sem reduzir sua complexidade a uma lista de blocos?
Foi nesse ponto que o Instituto Das Pretas chegou à Solvit. Havia iniciativas, materiais, públicos, referências, expectativas de parceiros e uma vontade legítima de que a presença institucional tivesse vida própria. O desafio não era decidir se o site teria uma seção a mais ou a menos. Era criar uma forma de apresentar um ecossistema diverso para quem precisava compreendê-lo, apoiar suas frentes e enxergar por onde se aproximar.
O risco de começar pela tela era transformar um trabalho de escuta em uma coleção de desejos. Em projetos assim, toda ideia parece importante porque, de fato, tem uma história por trás. Uma frente carrega uma trajetória, uma pessoa lembra de um material, outra aponta um público que não pode ficar de fora. Sem um recorte comum, cada nova conversa amplia a solução antes de explicar o que ela precisa resolver.
Por isso, o primeiro gesto do projeto foi tirar a interface do centro. A conversa começou por quem a presença institucional precisava alcançar, o que cada público deveria entender primeiro, que conteúdo tinha prioridade e quais pontos ainda dependiam de validação. O site seria a consequência visível dessas escolhas — não uma resposta automática para tudo o que a organização faz.
Nem toda demanda precisa entrar agora
Quando uma equipe tem muito a comunicar, priorizar pode parecer uma perda. Na prática, foi uma forma de preservar a intenção do projeto. O trabalho de diagnóstico separou aquilo que precisava ganhar forma na primeira versão daquilo que ainda dependia de texto, imagem, confirmação ou uma conversa adicional. Esse corte não dizia que os itens deixados para depois tinham menos valor. Dizia apenas que uma primeira entrega precisa ser reconhecível e revisável antes de crescer.
As perguntas foram ganhando uma ordem mais útil. Que tipo de experiência faria sentido para pessoas que chegam para conhecer o Instituto? O que patrocinadores, parceiros e poder público precisam enxergar para entender a relevância do trabalho? Onde a navegação deve convidar ao aprofundamento e onde ela precisa ser mais direta? Como preservar a riqueza das iniciativas sem sobrecarregar alguém que acaba de chegar?
As respostas apareceram no encontro entre escuta e recorte. A estrutura passou a considerar hierarquia de conteúdo, materiais que precisavam de revisão, caminhos de navegação, pontos de contato e critérios para reconhecer uma versão pronta para conversa. Não se tratava de congelar o projeto. Tratava-se de dar a ele um lugar de partida que a equipe pudesse ver, discutir e melhorar.
Essa é uma diferença importante entre executar uma solicitação e conduzir um projeto. Uma solicitação pede uma resposta imediata. Um projeto precisa de critérios que sobrevivam às próximas perguntas. Quando o escopo é claro, uma nova ideia não vira automaticamente uma urgência: ela pode ser comparada ao objetivo, entrar no momento certo ou permanecer como possibilidade para o ciclo seguinte.
A direção aparece quando a equipe consegue reagir ao mesmo objeto
O protótipo teve esse papel. Em vez de pedir que a equipe imaginasse a estrutura a partir de descrições abstratas, ele devolveu uma primeira versão sobre a qual todos podiam reagir. Algumas escolhas ganharam força; outras precisaram de ajuste. A conversa ficou concreta sem se tornar definitiva.
O caminho não foi uma linha reta. Ele foi desenhado para voltar. A escuta produziu um recorte; o recorte permitiu uma decisão; a decisão orientou um protótipo; o protótipo abriu um checkpoint; e o checkpoint devolveu novas informações para a conversa. A visualização abaixo traduz esse percurso sem fingir que ele se encerra quando uma tela é entregue.
Antes da primeira telaEtapas de escuta, recorte, decisão, protótipo e checkpoint, com retorno ao começo.Antes da primeira telaEscutaRecorteDecisãoProtótipoCheckpointO retorno não reabre tudo: melhora a próxima decisão.Antes da primeira tela: um percurso de escuta e decisão que transforma pedidos simultâneos em uma versão possível de avaliar.
Esse desenho também esclarece a participação do cliente. O Instituto não entrou no projeto apenas para aprovar uma entrega no final. Participou ao validar prioridades, oferecer contexto para materiais, identificar o que dependia de confirmação e dizer onde a solução precisava ganhar mais presença. A colaboração não foi um adereço da reunião; foi a matéria que tornou o recorte mais fiel à organização.
O que aconteceu depois do entusiasmo
Na apresentação da primeira sprint, a reação registrada foi imediata: “Amei, amei, amei.” O valor dessa frase não está em tratar entusiasmo como métrica de sucesso. Ele está no que veio logo depois. Uma primeira aprovação madura não encerra o projeto; ela melhora a qualidade do feedback.
Depois de reconhecer a direção estética e a estrutura da versão inicial, a equipe conseguiu transformar impressões em próximos passos concretos. Alguns textos precisavam voltar com revisão, novos materiais visuais seriam reunidos, informações institucionais dependeriam de confirmação e haveria outro checkpoint para olhar a versão seguinte. Em vez de uma rodada difusa de “ajustes”, surgiu uma lista com contexto, responsáveis e ordem de continuidade.
Esse momento é revelador porque mostra uma forma de trabalho mais humana. Pessoas não precisam chegar à primeira apresentação com todas as respostas prontas. Elas precisam de um ambiente em que consigam perceber o que falta, nomear o que mudou e decidir o que é prioridade sem reiniciar o projeto a cada comentário. O protótipo deu esse ponto de apoio.
Julie Oliveira, Instituto Das Pretas, compartilha sua experiência com a condução do projeto.
O vídeo preserva a voz de quem viveu o processo. Ele complementa, mas não substitui, a evidência mais importante deste case: uma equipe que conseguiu sair de um conjunto de possibilidades para uma primeira versão aprovada, com pendências visíveis e uma rota de trabalho para o ciclo seguinte.
O que a primeira versão precisava fazer — e o que ela não prometia
A primeira entrega precisava apresentar uma direção institucional com clareza, permitir que conteúdos e iniciativas ganhassem hierarquia e abrir uma conversa melhor sobre o que viria depois. Essa meta foi alcançada: a versão foi disponibilizada para leitura, aprovada como base e devolvida ao projeto com ajustes registrados.
Ela não era uma promessa de que todos os efeitos futuros já estavam comprovados. Não é honesto transformar uma primeira versão em afirmação de impacto, crescimento de audiência ou acessibilidade aferida em uso. Esses resultados dependem de lançamento, acompanhamento e novos ciclos de observação. A força do case está em outro lugar: na qualidade da passagem entre intenção, decisão e uma entrega que a equipe conseguiu reconhecer como sua.
Também por isso o site não é apresentado aqui como um produto isolado de criação. Ele é o vestígio visível de uma condução de projeto: escutar sem capturar tudo ao mesmo tempo, decidir sem reduzir a riqueza do contexto e construir uma primeira versão que convide a próxima conversa.
Depois da primeira versão, a conversa ficou melhor
O aprendizado que fica não depende de um projeto digital. Toda organização com muitas frentes pode se perder quando as pessoas tentam resolver tudo no mesmo momento. Há uma diferença entre ouvir todas as demandas e transformar todas elas em escopo. A primeira atitude é respeito; a segunda costuma produzir retrabalho.
O trabalho da Solvit é criar um lugar entre as duas coisas. Um lugar em que os pedidos possam ser escutados, comparados a uma intenção maior, transformados em decisões e devolvidos à equipe como próximos movimentos compreensíveis. A entrega aparece no fim, mas a direção precisa existir antes.
Na prática, esse tipo de condução pede atenção para detalhes que normalmente passam despercebidos: um material que ainda não pode ser publicado, uma prioridade que muda quando se olha para o público de chegada, uma dependência que precisa ganhar nome antes de prometer prazo. Esses detalhes não são burocracia. Eles protegem a equipe de produzir algo bonito, mas desconectado da intenção que trouxe o projeto até ali.
É por isso que os checkpoints não funcionaram como simples etapas de aprovação. Eles fizeram o projeto voltar à sua pergunta de origem: esta versão torna o Instituto mais compreensível para quem precisa encontrá-lo? Quando a resposta exigiu cuidado adicional, a pendência foi registrada. Quando uma decisão estava pronta, ela foi transformada em próxima ação. O resultado foi uma primeira versão concreta, com direção e espaço para amadurecer.
O site público do Instituto Das Pretas revela a presença institucional que o projeto buscava sustentar. Este texto não usa dados, telas internas, materiais ainda não aprovados, logos de parceiros ou imagens de pessoas como evidência do processo. A evidência que pode ser contada está na passagem entre escuta, recorte, decisão e revisão compartilhada.
Se sua iniciativa tem potência, mas ainda precisa de uma direção comum para sair do papel sem perder a própria complexidade, converse com a Solvit.




